Jovem aos 69, Gal Costa lança álbum de estúdio: “É um momento de recomeço”
21 maio 2015 às 8:45 pm

Jovem aos 69, Gal Costa lança álbum de estúdio: “É um momento de recomeço”

capa-de-estratosferica-novo-album-de-gal-costa-1431997579647_300x300Com novo disco de estúdio nas lojas na próxima segunda (25), Gal Costa se diz fascinada por recomeços. Foi assim, se reinventando, que se uniu a Caetano Veloso para moldar “Recanto”, em 2011, espécie de resgate estético de sua cultuada fase tropicalista, maior ruptura em décadas.

E é também dessa maneira que ela parece definir o espírito do novo “Estratosférica”, aqui apegando-se ao espaço físico que habita. “Sempre digo que este momento é de recomeço para mim. E estar aqui significa isso. São Paulo é o começar. O começo e o recomeço”, filosofa a “paulista-baiana”.

Com produção de Alexandre Kassin e Moreno Veloso, o álbum é musicalmente mais “moderado” que o predecessor, mas nem por isso deixa de soar atual. Mistura composições da nova (Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Criolo, Céu) e antiga gerações (Tom Zé, Milton Nascimento, Caetano, Johnny Alf) da música brasileira.

Com um olho à frente e o outro no retrovisor, Gal precisou aprender a conversar com a nova geração de fãs. Gente moderna, interessada principalmente em sua época mais anárquica, de 1969 a 1972, que rendeu clássicos como “Legal” e “Fa-Tal – Gal a Todo Vapor”.

De lá até a recente reinvenção, ela aquietou-se em um repertório mais reverente à MPB. Por causa disso, assim como outros colegas de sigla, foi criticada por um suposto “encaretamento”. “Gravei alguns discos [nos anos 60] usando o grito como expressão de canto. Mas não acho que isso seja regra para nada. A música pode ser ou não ser desse jeito”, contemporiza.

O que não muda nunca para a diva, rótulo que Gal não afasta, são os cabelos, sempre negros e cacheados, e a boca desenhada, “como se fosse de palhaço”, diz. A icônica imagem de Gal Gosta estampa a capa do novo disco. “Isso não tem como mudar (risos). Lembro que, quando eu era menina, cabelo liso que era legal. Cacheado não era. Depois, cacheado virou legal. E meu cabelo é cacheado. Eu gosto”, diz Gal, aos 69 anos, 50 só de carreira

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

UOL – “Estratosférica” tem rock, sons eletrônicos, mas também baladas e melodias inspiradas no samba. Como foi chegar a esse conceito de “meio termo”, olhando para frente e para trás?

Gal Costa – Esse conceito foi o momento que me trouxe. Quando o Caetano produziu para mim o “Recanto”, ele já havia percebido que os jovens estavam voltados para o meu trabalho e para minha história. E o “Estratosférica” veio para solidificar isso.

E a ideia era realmente fazer um trabalho voltado ao olhar dos jovens. Um trabalho para resgatar minha história. É como você disse, olhando para frente e para trás. Toda essa atmosfera faz parte da minha história musical. Momentos radicalmente diferentes, não só musicais, mas também comportamentais, de roupas e tudo mais.

Tentar permanecer atual é uma preocupação?

É. Acho que é uma coisa que eu tenho. E uma coisa que acompanha minha trajetória. E os momentos e épocas diferentes pelos quais eu passei. Cada uma de uma forma diferente.

Por que você mudou tanto em “Recanto”?

Na verdade, eu não estava fazendo nada. Fiquei uns quatro anos parada, fazendo um show, cantando grandes hits da minha carreira. Estava mais fazendo turnê, e não gravando. Então Caetano me chamou espontaneamente para compor o repertório e criou o “Recanto” para mim.

E foi realmente uma sacudida. E não foi nada estranho, porque tudo que foi feito ali cabia, fazia parte de mim e sentido na minha carreira. Então, a partir daí, eu resgatei uma fase da minha história rica e que veio de novo à tona.

Muitos dizem que você encaretou nos anos 1980, assim como outros artistas da sua geração.

Não acho. Acho que aquele psicodelismo que havia antes, nos anos 60, com Jimi Hendrix e Janis Joplin, aquilo que havia quando eu fiquei aqui no Brasil, enquanto Caetano e Gil estavam exilados, era um “radicalismo”, digamos assim.

Gravei alguns discos, especificamente um bastante radical, em que eu usava o grito como expressão de canto. Não que eu ache que isso seja regra. A música pode ser assim ou pode não ser. Mas eu acho que a juventude se referencia muito pelo tropicalismo. Grande parte dos jovens que compõem hoje seguem esse caminho. Pela busca de uma linguagem eletrônica e diversificada.

O tropicalismo não só trouxe uma sonoridade para a música brasileira, a da MPB, vamos dizer assim. Mas resgatou também muitos compositores que não eram valorizados no Brasil.

Por que esse período marcou tanto?

Para os jovens, aquela época ficou como uma espécie de mito. Um momento importante. E de reinvenção. Acho que é isso. É historicamente importante mostrar esse momento para os jovens que não viveram isso.

Mudando de assunto. Recentemente, o Ed Motta criou polêmica ao criticar duramente o público brasileiro que vai a shows no exterior. Já passou por algum problema assim?

Nem vou me meter nessa polêmica. Mas eu canto muito fora do Brasil. Faço show na Europa, América Latina e Estados Unidos. E vai muita gente brasileira, e muito americano e estrangeiro também. Muita gente que até aprendeu a falar português por causa da música do Brasil.

Acho que meu público no exterior é relacionado a quem gosta de música brasileira. Então eu não me importo que brasileiro vá. Imagina. Eles vão porque gostam e sentem saudade da música. Até se sentem honrados e orgulhosos pela música do Brasil ser cultuada e respeitada no mundo todo.

Você nunca perdeu essa aura de tranquilidade, mesmo morando há anos em uma cidade como São Paulo. Qual é o segredo?

Tem pessoas tranquilas em São Paulo, sabia? (risos) É uma cidade difícil. As pessoas trabalham e pensam muito em trabalhar. Mas acho que trabalhar é bom. Na minha opinião, enobrece as pessoas. Lembro de meu avô dizendo, com orgulho: “Puxa, comprei a primeira casa que tive com o esforço do meu trabalho”.

Gosto muito de São Paulo. É uma cidade tão bacana… Você pode tanto ficar em casa, se isolar, quanto ir pra rua, pra festa. Tem tanta coisa diferente para fazer. Uma cidade tão rica e bacana. Gosto muito dos paulistas. Eles me veem na rua e falam como se eu fosse uma velha amiga. Isso é superlegal. Claro que tem um trânsito estressante, mas em qualquer lugar no Brasil hoje é assim.

Estar em SP influencia no seu trabalho?

Acho que sim. Mesmo que eu não saiba como. Mas influencia para o bem. Sempre digo que este momento é de recomeço para mim. E estar aqui significa isso. São Paulo é o começar. O começo e o recomeço.

Você muda de estilo, muda de fase, mas o cabelo…

Isso não tem como mudar (risos). Lembro que, quando eu era menina, cabelo liso que era legal. Cacheado não era. Depois, cacheado virou legal. E meu cabelo é cacheado. Eu gosto.

E minha boca, eu nasci com essa marca. Ela é meio “palhaço”, assim, tem um desenho bem definido. Com tudo, não é redonda. Então mantenho tudo isso. Eu gosto de cabelo cacheado. São as minhas duas marcas essenciais, fisicamente falando.

E para os próximos projetos, vai seguir olhando para frente?

Claro. Penso sempre nisso. Sempre para frente, como diz a música que abre o disco: “Nada do que fiz, por mais feliz, está à altura do que há por fazer”.

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